Você fecha a encomenda, combina a entrega para sexta à noite, coloca a caixa no banco do carro e sai feliz da cozinha. No fim do mês, quando as contas chegam, aparece aquele valor estranho na conta de gasolina que ninguém lembra de ter feito. Foi a entrega. Ou melhor: foram as 14 entregas que você fez de graça, cada uma com combustível, tempo e desgaste do carro saindo do seu bolso.
Entrega de bolo e doces tem custo de verdade, e este guia vai mostrar como calculá-lo por completo: combustível, tempo, desgaste do veículo e embalagem extra. No final, você terá um número justo para cobrar (ou decidir embutir de olhos abertos) e frases prontas para explicar o valor no WhatsApp.
Por que a entrega gratuita destrói a margem do seu produto

Você passou horas calculando o preço do bolo: custo por grama, mão de obra, embalagem, margem. Fechou tudo certinho com margem de 30%. Aí a cliente pede entrega “de favor” num bairro a 12 km, e você aceita porque não quer perder a venda.
A conta do prejuízo é rápida, e ela é prima das armadilhas de precificação mais comuns da confeitaria. Se a entrega custa R$ 20 entre combustível, tempo e desgaste, e a sua margem no bolo era R$ 45, você acabou de embutir quase metade do lucro da encomenda numa gentileza. Faça isso em todas as encomendas do mês e a “margem de 30%” vira margem de 15% que nenhuma planilha mostra, porque o custo está escondido no tanque e no seu sábado.
Entrega não é cortesia: é serviço. Tem custo, ocupa tempo e gera risco (bolo tombando no banco do carro é clássico da categoria). Serviço com custo se cobra ou se precifica conscientemente. Este guia mostra como.
Os quatro custos reais de uma entrega

Antes de qualquer fórmula, você precisa saber o que está pagando. Toda entrega tem quatro custos:
Combustível: é o mais fácil de calcular. Distância ida e volta, dividida pelo consumo do carro, multiplicada pelo preço do litro. Carro que faz 10 km por litro com gasolina a R$ 5,10 gasta R$ 0,51 por quilômetro rodado.
Tempo: a hora que você está na estrada não produz bolo. Se o seu valor de hora é R$ 18,75 (o mesmo do método deste blog: R$ 3.000 ÷ 160 horas), cada minuto na estrada custa R$ 0,31. E não conta só o deslocamento: conta o tempo de estacionar, procurar o endereço, subir as escadas e esperar a cliente descer.
Desgaste do veículo: pneu, revisão, seguro, IPVA, lavagem. Difícil de precisar por entrega, então o mercado trabalha com estimativa: 5% a 10% do custo do combustível cobrem o desgaste médio com folga.
Embalagem de transporte: caixa mais rígida, suporte anti-tombo, bolsa térmica, gelo reutilizável para recheio que derrete. Se a entrega exige mais proteção que a venda na porta da sua casa, isso é custo da entrega.
A fórmula em quatro contas

Custo da entrega = combustível + (tempo total × valor da sua hora) + desgaste + embalagem de transporte. Aplique com números reais, usando uma rota típica:
Uma entrega a 15 km de distância, 30 km ida e volta:
- Combustível: 30 km ÷ 10 km/L = 3 litros × R$ 5,10 = R$ 15,30;
- Tempo: 25 minutos de cada lado, mais 10 minutos de estacionamento e espera: 60 minutos = 1 hora × R$ 18,75 = R$ 18,75;
- Desgaste (5% do combustível): R$ 0,77;
- Embalagem de transporte (suporte anti-tombo reutilizável, rateio): R$ 1,00.
Custo total: R$ 15,30 + R$ 18,75 + R$ 0,77 + R$ 1,00 = R$ 35,81. Uma entrega “rapidinha” de 15 km custa mais de R$ 35. Agora olhe para o que você cobra de entrega hoje (se é que cobra) e compare.
Exemplo completo: a tabela de faixas de distância

Ninguém quer fazer conta no meio do WhatsApp. A solução prática é transformar a fórmula em faixas de distância calculadas de uma vez, com embalagem de transporte de R$ 1,00 e desgaste de 5% do combustível embutidos:
- Até 5 km (10 km ida e volta, 40 minutos): R$ 5,10 de combustível + R$ 12,50 de tempo + R$ 0,26 de desgaste + R$ 1,00 de embalagem = R$ 18,86, cobre R$ 20;
- 5 a 10 km (20 km ida e volta, 50 minutos): R$ 10,20 + R$ 15,63 + R$ 0,51 + R$ 1,00 = R$ 27,34, cobre R$ 28;
- 10 a 15 km (30 km ida e volta, 60 minutos): R$ 15,30 + R$ 18,75 + R$ 0,77 + R$ 1,00 = R$ 35,81, cobre R$ 36;
- 15 a 25 km (50 km ida e volta, 80 minutos): R$ 25,50 + R$ 25,00 + R$ 1,28 + R$ 1,00 = R$ 52,77, cobre R$ 53.
Essa tabela é sua amiga. Imprima, cole na geladeira ao lado do caderno de encomendas e nunca mais responda “quanto é a entrega?” no chute. Recalcule quando a gasolina mudar de preço, porque ela muda toda semana.
Quanto cobrar: regra de arredondamento e mínimo

O custo da entrega é combustível + tempo + desgaste + embalagem, e nada de arredondar para baixo: o custo é o custo. O que você pode fazer é escolher números redondos para facilitar a comunicação (R$ 20, R$ 28, R$ 36, R$ 53), sempre por cima do custo calculado, nunca por baixo.
Há ainda a decisão estratégica: cobrar a taxa à parte ou embutir no preço do produto? As duas são válidas quando conscientes:
- À parte: cliente enxerga o serviço, você protege a margem do produto e a cliente próxima não subsidia a distante;
- Embutida: “entrega grátis acima de R$ 150” é na verdade entrega paga dentro do orçamento. Funciona como artifício de aumento de ticket: a taxa de R$ 28 está lá dentro, e o pedido mínimo sobe para compensá-la.
Erros comuns ao cobrar pela entrega

Cobrar taxa única para qualquer distância: R$ 10 fixos para o bairro do lado e para a cidade vizinha é generosidade com o dinheiro de quem trabalha. Use faixas de distância.
Ignorar o tempo de trânsito: às 18h a mesma rota demora o dobro. Calcule pelo horário real das entregas (que quase sempre é horário de pico, porque cliente pede bolo de festa para as 19h de sexta).
Esquecer o tempo de espera: procurar endereço, estacionar, esperar. Você não está dirigindo, mas está trabalhando.
Fazer “frete grátis” sem conta: promoção com custo escondido é promoção no prejuízo. Se é grátis para a cliente, alguém está pagando: você.
Não cobrar do vizinho “porque é perto”: 5 km também custam R$ 18 de verdade. Se for política da casa (fidelidade, gentileza), que seja decisão, não esquecimento.
Entrega própria ou aplicativo: quando cada uma vale a pena

Entrega própria dá controle total: você escolhe a hora, garante o manuseio do bolo e mantém o contato com a cliente. Em troca, assume todos os custos que calculamos acima, mais o risco. Vale a pena quando a taxa coberta cobre o custo real e a região de atendimento é enxuta.
Aplicativo (iFood, Rappi, Flash, motoboy parceiro) transfere a operação: você paga por quilo e distância, sem se preocupar com carro e trânsito. Em troca, entrega o controle (o motoboy não foi treinado para bolo com pasta americana) e paga comissão sobre a corrida. A conta é simples: se o app cobra R$ 15 para entregar a 8 km e a sua entrega própria custaria R$ 28 em custo real, o app é mais barato; se cobra R$ 30, sua própria entrega é melhor. Faça essa comparação por faixa de distância e escolha por rota, não por moda.
Como comunicar a taxa no WhatsApp sem perder o cliente

Comunicação é metade da precificação de entrega. Três frases que funcionam:
“A taxa de entrega para o seu bairro é R$ X, calculada pela distância: ela cobre combustível, o meu tempo de deslocamento e o transporte seguro do bolo.”
“Prefere retirada? A retirada aqui na minha cozinha é sempre grátis, e combino um horário que caiba na sua rotina.”
“Para encomendas acima de R$ 150, deixo a taxa por minha conta.”
Nota final: taxa comunicada antes é serviço; taxa surpresa no fim é briga. Inclua a entrega no orçamento desde a primeira mensagem e nunca surpreenda a cliente na hora de pagar.
Perguntas frequentes sobre taxa de entrega

Quanto cobrar por entrega de bolo? Pelo custo real da sua rota. Com os números deste guia (gasolina R$ 5,10/L, carro 10 km/L, hora R$ 18,75), uma entrega de 15 km custa R$ 35,81 e deve ser cobrada a partir de R$ 36. Refaça a conta com os preços da sua cidade e o consumo do seu carro.
Entrega grátis atrai clientes? Atrai clientes que compram porque é grátis, não porque valorizam o seu trabalho. Se usar entrega grátis, use como estratégia de ticket (acima de R$ 150), com o custo embutido no orçamento, nunca como padrão para todo pedido.
O que fazer quando a cliente pede para “ficar sem taxa”? Ofereça retirada grátis ou explique o que a taxa cobre. Ceder toda vez ensina o mercado a nunca pagar entrega, e esse contrato é difícil de desfazer depois.
Cobrar por quilômetro rodado funciona? Funciona e é justo: R$ 0,51 de combustível + tempo + desgaste dá algo em torno de R$ 1,30 a R$ 1,60 por km para a maioria dos carros populares. A tabela por faixas é apenas a versão amigável dessa conta.
Posso dar desconto na entrega para encomendas grandes? Pode, desde que saiba de onde ele sai: da margem da entrega. Encomenda de R$ 300 com entrega de R$ 36 embutida ainda é lucrativa (o guia de como calcular o preço de um bolo mostra essa conta completa); a mesma encomenda com duas entregas gratuitas de 20 km já pede revisão.
Coloque em prática hoje
Monte agora a sua tabela de faixas: pegue o preço atual da gasolina na sua cidade, o consumo do seu carro e o seu valor de hora, e calcule o custo real para 5, 10, 15 e 25 km. Arredonde para cima, anote as quatro taxas e use a partir da próxima encomenda. Leva meia hora e resolve uma dúvida que vem custando dinheiro desde a primeira entrega.
Para o resto da conta, o blog já cobre cada etapa: preço do bolo, preço dos doces, bolo de pote e ficha técnica, e a calculadora de precificação do Planilha Confeitaria soma ingredientes, mão de obra e margem no mesmo lugar, de graça e sem cadastro.
Se a sua rota atende clientes fora do bairro toda semana, vender doces para empresas transforma a entrega em agenda previsível. Para encomendas grandes de festa, vale combinar sinal e entrega na mesma conversa, o guia de sinal de encomenda mostra como fazer isso sem constrangimento.