“Quanto você cobra pelo cento?” É a pergunta que toda confeiteira ouve, e a que mais gera resposta errada. Muita gente responde com o preço que “está todo mundo cobrando” no bairro, sem nunca ter feito a conta de quanto custa de verdade produzir aqueles cem docinhos. E assim o cento vai sendo vendido cada vez mais barato, com a confeiteira enchendo a agenda de encomendas e terminando o mês sem dinheiro no bolso.
Neste guia você vai aprender a precificar doces pelo método que começa na unidade (no brigadeiro isolado) e termina no preço do cento, da caixinha e da festa inteira. Com os números todos à mostra, para você refazer a conta na sua cozinha com os seus preços.
Resposta rápida: conte de 6 a 8 doces por convidado, a conta que os buffets usam. Festa de 150 pessoas dá de 900 a 1200 unidades, ou 9 a 12 centos. Festa de 300 vai de 1800 a 2400, ou 18 a 24 centos. O resto do guia mostra como precificar cada cento com os seus custos, sem chute.
Por que o preço do cento sempre dá dúvida

O cento dá dúvida porque mistura duas coisas muito diferentes: um custo baixo por unidade (centavos de ingrediente) e um trabalho enorme acumulado (cem docinhos enrolados, um a um). O olho vê “R$ 0,27 de ingrediente por doce, R$ 27 no cento” e acha que vender por R$ 60 já é um bom negócio. Só que nessa conta não entraram forminha, caixa, gás, embalagem e (o mais caro de tudo) as horas de enrolar brigadeiro na mão.
O resultado é o erro clássico da confeitaria brasileira: cento vendido a R$ 70, custo real de R$ 87, prejuízo de R$ 17 por encomenda, e a confeiteira ainda comemorando porque “vendeu tudo”. Preço de doce não se responde com o mercado; se responde com a própria conta. É ela que você vai montar agora.
O que é um cento de doces (e quantos doces ele tem de verdade)

Antes da conta, o acordo com o cliente. Cento de doces é, na origem, cem unidades: cento simples de brigadeiro, cem beijinhos. Mas na festa brasileira o cento quase nunca é de um sabor só, e aí entram as três convenções que você precisa deixar explícitas no orçamento ou a cliente conta 100 brigadeiros e você entrega 33 de cada:
Cento misto (o mais pedido): cem doces divididos em dois ou três sabores, por exemplo 50 brigadeiros, 30 beijinhos e 20 casadinhos. Divide-se igualmente, na proporção que a cliente escolher, ou na sua tabela padrão. O preço é a soma ponderada dos custos por tipo, não o cento do brigadeiro com outro nome.
Cento de festa (por convidado): a convenção de quantidade, 6 a 8 doces por pessoa, então “um cento para 15 pessoas”. Não confunda as duas coisas: o cento-quantidade (100 unidades) e o cento-cálculo (6-8 por convidado) se cruzam quando a cliente pergunta quantos centos comprar para a festa dela.
Meio cento e dúzia: deriva diretos do cento: 50 e 12 unidades, mesmo preço unitário, embalagem proporcional. Ter essas três linhas fixas na tabela evita o orçamento montado de cabeça em cima da mesa.
Na prática, precificar cento de doces é precificar o mix: custo unitário de cada sabor × quantidade dele no cento + embalagens na mesma proporção + mão de obra do conjunto + margem. Quem monta a tabela do cento misto padrão (a proporção 50/30/20) calcula uma vez e usa o ano todo. E quando a cliente pedir sabor fora do padrão, refaça a ponderação, não improvise no chute.
O que entra no preço de um doce (a conta completa)

Preço do doce = ingredientes + embalagem + mão de obra + gás/energia + margem de lucro. Cada parte tem sua pegadinha:
- Ingredientes: custam centavos por unidade, e é por isso que ninguém percebe quando ficam fora da conta. O custo por grama é o que transforma “uma lata de leite condensado” em número confiável;
- Embalagem: forminha, caixa, papel, laço. Barata na unidade, cara no cento: 100 forminhas e uma caixa decente somam alguns reais que precisam estar no preço;
- Mão de obra: o tempo de fazer a massa, enrolar cada docinho e embalar. É o item mais ignorado, e o que separa quem lucra de quem trabalha de graça;
- Gás e energia: a panela no fogão e a geladeira ligada existem em toda fornada, mesmo que ninguém anote;
- Margem de lucro: o que sobra depois de tudo pago, inclusive o seu salário. Sem margem, não existe negócio; existe emprego sem carteira assinada.
Um lembrete que atravessa todo este guia: o que você se paga pelo trabalho é remuneração, não lucro. Lucro é o que sobra depois. Se os dois se confundem, o cento pode “dar lucro” no papel enquanto afunda a confeitaria na prática.
Passo 1: Custo por unidade: do grama ao docinho

Tudo começa no custo por grama: preço do pacote ÷ peso. A lata de leite condensado de 395 g que custou R$ 7,50 dá R$ 0,019 por grama. O chocolate em pó de R$ 18,00 no pacote de 500 g dá R$ 0,036 por grama. A manteiga de R$ 19,20 no pacote de 400 g dá R$ 0,048 por grama. Granulado de R$ 6,00 nos 200 g dá R$ 0,030 por grama.
Com os custos por grama na mão, a receita inteira vira uma conta pequena. Uma panelada para um cento de brigadeiro de 15 g leva: 790 g de leite condensado (duas latas) a R$ 0,019 = R$ 15,00; 80 g de chocolate a R$ 0,036 = R$ 2,88; 60 g de manteiga a R$ 0,048 = R$ 2,88; 200 g de granulado a R$ 0,030 = R$ 6,00. Total: R$ 26,76 de ingrediente para a panelada que rende, na prática, cerca de 100 unidades, já descontando o que gruda na panela e o docinho “de controle” que todo mundo come no meio do caminho.
Custo de ingrediente por unidade: R$ 26,76 ÷ 100 = R$ 0,27. Guarde esse número: ele vai voltar na conta do cento.
Passo 2: Forminha, caixa e embalagem

A embalagem é o custo mais fácil de calcular e o mais fácil de esquecer. No cento:
- Forminhas: 100 unidades a R$ 0,03 cada = R$ 3,00;
- Caixa do cento: uma caixa simples de papelão com divisórias custa a partir de R$ 4,00;
- Detalhes: laço, etiqueta, sacola externa: alguns centavos, mas existem.
Somando o essencial: R$ 3,00 de forminhas + R$ 4,00 de caixa = R$ 7,00 de embalagem por cento. R$ 0,07 por doce. É quase um terço do custo do ingrediente, e muita gente nem coloca na conta. Se a encomenda é para festa com caixa decorada ou chequeiro, o valor sobe ainda mais, e o preço precisa acompanhar.
Passo 3: Mão de obra: o tempo de enrolar doces

Aqui mora o coração da precificação de doces. Um cento de brigadeiro consome tempo de verdade: derreter e mexer a massa (40 minutos), esperar dar o ponto, enrolar cem unidades (uma hora e pouco), passar no granulado e embalar uma a uma. Contando a louça, são cerca de 2h30 por cento.
Quanto vale a sua hora? O mesmo critério do guia de como calcular o preço de um bolo: o salário que você quer retirar por mês dividido pelas horas trabalhadas. Se você quer se pagar R$ 3.000 em 160 horas mensais, sua hora vale R$ 18,75.
Mão de obra do cento: 2h30 × R$ 18,75 = R$ 46,88. Por unidade: R$ 0,47. Note que a mão de obra custa quase o dobro do ingrediente, é esse segredo que faz o cento “barato” da concorrente ser, na prática, trabalho gratuito disfarçado de promoção.
Passo 4: Gás, energia e o rateio invisível

Brigadeiro não vai ao forno, mas vai à panela, e panela aceso é botijão acabando. Meia hora de fogo médio com botijão de R$ 100 a R$ 110 que rende 9 a 11 horas de uso dá cerca de R$ 6,00 por cento. A geladeira esperando a massa firmar e a batedeira (quando a receita pede) somam poucos centavos: R$ 0,50 cobre com folga.
Total de gás e energia: R$ 6,50 por cento. R$ 0,065 por doce. Parece pequeno, mas em 10 centos no mês são R$ 65 que saem do seu bolso se ficarem fora do preço. Rateio é chato de fazer uma vez e tranquilo de usar para sempre.
Passo 5: Margem de lucro e o preço do cento

Hora de somar tudo:
- Ingredientes: R$ 26,76
- Embalagem: R$ 7,00
- Mão de obra: R$ 46,88
- Gás e energia: R$ 6,50
- Custo total do cento: R$ 87,14
Agora a margem, sobre o preço de venda, como sempre. Para embutir 30% de margem partindo do custo, divide-se por 0,70: R$ 87,14 ÷ 0,70 = R$ 124,49. Arredondando para cima, o cento sai a R$ 125,00, ou R$ 1,25 por docinho.
R$ 125 parece caro comparado aos anúncios de “cento por R$ 90” que aparecem por aí? Lembre do que está dentro: ingredientes de verdade, embalagem, gás, R$ 46,88 de salário pelas suas horas e R$ 37 de margem para o negócio crescer. Quem vende por R$ 90 está, no mínimo, abrindo mão da margem, ou do próprio salário. O preço do outro nunca foi guia; é armadilha de comparação.
Exemplo completo: cento de brigadeiro

Resumo da conta inteira, linha a linha, para você conferir e replicar:
- Leite condensado: 790 g × R$ 0,019 = R$ 15,00
- Chocolate em pó: 80 g × R$ 0,036 = R$ 2,88
- Manteiga: 60 g × R$ 0,048 = R$ 2,88
- Granulado: 200 g × R$ 0,030 = R$ 6,00
- Ingredientes: R$ 26,76 (R$ 0,27 por unidade)
- Forminhas + caixa: R$ 7,00 (R$ 0,07 por unidade)
- Mão de obra: 2h30 × R$ 18,75 = R$ 46,88 (R$ 0,47 por unidade)
- Gás + energia: R$ 6,50 (R$ 0,065 por unidade)
- Custo total: R$ 87,14
- Preço com margem de 30%: R$ 87,14 ÷ 0,70 = R$ 125,00 o cento
Se a sua realidade for outra, ovos mais caros, forminha importada, hora valendo mais,, os números mudam e o método continua. O que não muda é a ordem: custo primeiro, margem depois, preço por último.
Quanto cobrar por caixinha, 50 unidades e festas

Nem toda venda é de cento inteiro, e é aqui que muita gente se perde. Com o custo por unidade na mão, qualquer formato vira multiplicação:
- Caixa com 25 docinhos: 25 × R$ 1,25 = R$ 31,25. Cobre R$ 32 para embutir a caixinha individual, que é mais bonita (e mais cara) que a caixa de cento;
- 50 unidades: 50 × R$ 1,25 = R$ 62,50. Cobre R$ 63 ou arredonda para R$ 65 pelo trabalho de separar meio cento de duas fornadas;
- Cento e meio para festa: 150 × R$ 1,25 = R$ 187,50, em festa, vale apresentar faixa de preço por variedade, porque brigadeiro de pistache não custa o mesmo que brigadeiro tradicional.
Um cuidado: quando a venda mistura sabores e tamanhos, o caminho é calcular o custo de cada tipo (brigadeiro, beijinho, cajuzinho têm receitas e custos diferentes) e montar a média da caixa, nunca aplicar um preço único de “doce” para tudo. O cento misto de festa nasce dessa média, com margem embutida em cada linha.
Erros comuns ao precificar doces

- Preço do cento copiado da concorrente: você não faz ideia de qual conta ela fez, se é que fez. Copiar preço alheio é herdar o erro alheio;
- Embalagem fora da conta: R$ 7 por cento parece pouco até somar dez centos no mês;
- Rendimento teórico: a panela que “deveria” render 110 docinhos rende 100. Preço se calcula com o rendimento real, medido na sua cozinha;
- Mão de obra ignorada: sem as suas horas na conta, o “lucro” do cento é só salário adiado, que chega junto com o desgaste;
- Margem calculada sobre o custo: “custo R$ 87 mais 30% = R$ 113” está errado. Margem de 30% sobre a venda significa dividir o custo por 0,70, senão a margem real fica em 23%;
- Desconto automático para “fechar a encomenda”: desconto sai da margem. Sem saber a margem de cada cento, todo desconto é aposta.
Perguntas frequentes sobre preço de doces

Quanto cobrar pelo cento de brigadeiro? Com os números deste guia: R$ 125. Mas o seu cento tem os seus custos, refaça a conta com os preços da sua cidade, o seu valor de hora e a sua embalagem. O resultado é o seu preço, não o meu.
E o beijinho e o cajuzinho, têm o mesmo preço? Não necessariamente: cada doce tem receita, rendimento e trabalho diferentes. Beijinho usa coco (barato) e rende parecido; cajuzinho leva amendoim e formato com ponta. Calcule o custo por unidade de cada um: a diferença entre eles costuma ser de centavos, mas em centos inteiros vira dinheiro.
Vender caixa com 25 vale a pena? Vale, margem por unidade é a mesma e a caixinha permite preço proporcionalmente um pouco maior. Só cuide do custo da embalagem individual, que pesa mais por doce que a caixa de cento.
Doces para festa de 300 pessoas: como orçar? Conte 6 a 8 doces por convidado (padrão que os buffets usam), calcule o custo por variedade, some e aplique sua margem. Encomenda grande não é desconto automático: é produção que ocupa sua semana inteira, e sua semana tem preço.
A cliente acha o cento caro. O que dizer? Mostre o que está incluso: ingrediente de qualidade, produção artesanal enrolada à mão, embalagem e entrega. Quem compara com industrializado está comparando outro produto. E quem só procura o mais barato raramente vira cliente fiel.
Quantos doces para uma festa de 150 convidados? Siga os 6 a 8 por convidado, o padrão que os buffets usam, isso dá de 900 a 1200 unidades, ou 9 a 12 centos. Se a mesa também tem bolo e salgados, fique perto dos 6. Se o doce é o destaque da festa, trabalhe com 8. Com o número fechado, multiplique pelo seu custo por unidade antes de dar o orçamento: é a conta que diz o valor real daquela encomenda.
Como montar o cento para uma festa de 300 convidados? São 1800 a 2400 doces nos mesmos 6 a 8 por pessoa, ou 18 a 24 centos. No cento misto vale a divisão 50/30/20 deste guia (brigadeiro, beijinho, casadinho): 18 centos viram 900 brigadeiros, 540 beijinhos e 360 casadinhos. Precifique cada tipo, some o mix com a embalagem proporcional e aplique a sua margem. Para um volume assim, programe os dias de produção com antecedência e não improvise na semana da entrega.
Coloque em prática hoje
Pegue sua receita de brigadeiro mais vendida e faça a conta completa de um cento: custo por grama dos ingredientes, rendimento real da panela, forminhas, caixa, suas horas (conte mesmo, com cronômetro se precisar), gás e margem. Compare com o que você cobra hoje: a diferença entre os dois números é o dinheiro que estava faltando no fim do mês. Para checar quais armadilhas mais derrubam essa conta, veja os sete erros de precificação que mais destroem o lucro da confeitaria.
Se quiser montar essas contas sem fazer tudo na mão, a calculadora de precificação do Planilha Confeitaria soma ingredientes, mão de obra e margem e gera a ficha técnica do doce, gratuita e sem cadastro. Para padronizar as receitas antes de precificar, o guia de ficha técnica de confeitaria mostra o passo a passo completo.