Antes de calcular o preço de um bolo, existe um número que precisa estar pronto: quanto vale uma hora do seu trabalho. Se ele vier do achismo, o preço inteiro fica torto, porque mão de obra não é sobra do que sobrou depois dos ingredientes, é custo de verdade, e custo que a maioria das confeiteiras erra para baixo.
Vi isso de perto quando comecei. Pegava o salário que eu sonhava ter, dividia por um número de horas generoso demais, e achava que estava cobrando bem. Estava cobrando pouco, e o bolo saía com a minha hora barata porque eu mesma não sabia quanto ela custava. Este artigo é o caminho que eu segui para parar de trabalhar de graça, com a conta completa e os erros que estragam o resultado.
Resposta rápida: divida o salário que você quer receber por mês pelo número real de horas produtivas que você trabalha nesse mês. O resultado é o custo da sua hora. Some o tempo que cada receita leva, multiplique pelo seu custo-hora, e pronto, esse é o valor da mão de obra que entra no preço. Quem ainda não tem salário definido usa como piso o valor de mercado da hora de uma confeiteira contratada na sua cidade, não o mínimo.
Por que o preço do bolo começa pela sua hora

Muita gente monta preço de trás para frente: olha o quanto o vizinho cobra, decide um valor bom e depois tenta encaixar os custos. Dá certo até o mês em que a farinha sobe e a margem que ninguém calculou vira prejuízo escondido.
A ordem honesta é: primeiro você define quanto vale a sua hora, depois soma quanto tempo cada produto leva, e aí o preço deixa de ser chute e passa a ser conseqüência. É o mesmo princípio que sustenta o cálculo completo do preço de um bolo, só que aqui a gente abre a capô de uma peça específica: a mão de obra.
Ela é a parte mais fácil de esquecer porque é invisível. O chocolate você vê na nota da compra. As horas você não recebe nenhuma fatura delas, então o cérebro trata como coisa gratuita. Não é. Cada hora de cozinha é uma hora que você não dormiu, não ficou com a família, não vendeu outra coisa.
A conta: salário desejado dividido por horas produtivas

Pega o quanto você quer receber por mês trabalhando na confeitaria. Pode ser o salário de uma vaga parecida na sua região, pode ser o valor que você considera justo para manter seu padrão de vida. Esse é o ponto de partida, não o salário mínimo e não o que você tirou no mês passado.
Agora divide pelo número real de horas produtivas que você consegue trabalhar nesse mês. Aqui mora o erro número um. Muita confeiteira divide por 220 horas achando que trabalha um mês inteiro, quando na verdade tem filho, mercado, entregas, e as horas de comprar e lavar vasilha que não viram produto.
Um exemplo para você não errar a divisão. Suponha que você quer R$ 2.400 por mês e consegue produzir de verdade 120 horas, trinta por semana, com o resto virando compra, entrega, atendimento e casa. R$ 2.400 dividido por 120 dá R$ 20 por hora. Se você usasse as 220 horas de escritório, cairia para R$ 10,90, praticamente o dobro de trabalho pela metade da hora. É assim que se cobra barato sem perceber.
Anote a fórmula: salário desejado, dividido pelas horas produtivas, igual ao seu custo-hora. É o número que vai aparecer depois em cada ficha técnica, então vale refazer a conta quando sua rotina muda.
O que conta como hora produtiva (e o que não conta)

Hora produtiva é a hora em que você está criando o produto: batendo massa, assando, decorando, montando, embalando para vender. Essas entram no cálculo do preço sem discussão, e é sobre elas que você multiplica.
Mas existe um segundo tipo, que eu chamo de hora invisível: responder cliente no WhatsApp, ir ao mercado, buscar embalagem no correio, limpar a cozinha, estudar uma receita, postar foto. Essa hora também consome o seu mês, e se não entrar em lugar nenhum, você está doando tempo.
A forma limpa de resolver é não poluir o custo-hora com ela. Você calcula o preço da hora de produção normalmente e depois repassa a hora invisível de outra forma, diluindo nas despesas fixas do mês, no pró-labore, ou numa porcentagem de custo geral que você soma ao preço do produto. O cálculo do pró-labore trata exatamente dessa separação, e vale ler depois, porque é onde muita gente confunde remunerar o próprio trabalho com ter lucro.
Receita simples: cronometre três produções reais. Massa de um bolo semi-naked, por exemplo, do início ao fim. Se você achava que levava duas horas e na verdade leva quatro, seu custo-hora e seu preço de bolo estavam errados pela metade, e agora você sabe.
Colocando a hora no preço: do tempo de receita ao valor de mão de obra

Com o custo-hora definido, o passo seguinte é o mais mecânico. Cada receita leva um tempo. Você multiplica esse tempo pelo seu custo-hora e obtém a mão de obra daquela receita.
Bolo que leva 2 horas de produção com custo-hora de R$ 20 entra com R$ 40 de mão de obra. Soma os ingredientes, soma a embalagem, e sobre o total vem a margem de lucro, que é outra coisa, não a sua hora. Guardar essa linha separada evita o erro clássico de achar que lucro é o que sobra depois de se pagar: seu salário é custo, lucro é o que o negócio ganha por existir, tema que aprofundo no guia da ficha técnica.
Quando o produto tem mais de uma pessoa na produção, ou quando você ajuda outra confeiteira, aí o custo-hora vira valor combinado, um preço por hora que vocês fecham entre si, e não só a divisão do seu salário pelas suas horas. É o preço justo da hora de quem faz, ponto pacífico de mercado.
Os erros que deixam a hora barata demais

O primeiro é o que já falei: dividir o salário por horas demais. Ninguém trabalha o mês inteiro na cozinha, quem acha que sim está se enganando de propósito para poder cobrar barato sem culpa.
O segundo é copiar o valor-hora de outra confeiteira sem olhar a estrutura dela. Uma confeiteira com forno industrial resolve em 40 minutos o que você leva uma hora e meia no forno doméstico. A sua hora pode até parecer alta comparada com a dela, mas na verdade ela está embutindo o custo de não ter forno industrial.
O terceiro é cobrar só o tempo que a mão fica na massa e esquecer o tempo de espera. Bolo gelando, biscoito esfriando, glacê secando. Se você não consegue aproveitar esse intervalo, o tempo não é vago, é ocupado, e é seu.
O quarto é não reajustar quando o custo de vida e o preço dos ingredientes mudam. A hora de dois anos atrás já não paga a sua vida de hoje. Uma vez por semestre, refaz a divisão, é rápido. E se depois de acertar a hora o preço ainda não fecha, o diagnóstico completo vale contra a lista dos erros de precificação, porque hora barata quase nunca vem sozinha.
Quando cobrar a hora e quando cobrar o produto

Na maior parte do tempo você não mostra a hora para a cliente, você mostra o preço do bolo. O custo-hora mora atrás, no seu cálculo. A pergunta aqui é outra: para encomenda fora do padrão, quando vale cobrar por hora em vez de por produto?
Cobre por hora quando a cliente está comprando o seu conhecimento ou o seu tempo, não o bolo em si: aula de confeitaria, consultoria para montar cardápio, teste de receita. Nesses casos a cliente não está levando um produto pronto, está levando uma hora da sua cabeça, e o preço justo dela é justamente o seu custo-hora, com a margem de especialista por cima.
Para bolo decorado que foge do catálogo, a alternativa elegante é cobrar a hora extra de decoração como linha separada do orçamento. A cliente entende quando você diz que o semi-naked com flores naturais leva uma hora adicional de trabalho artesanal e tem custo correspondente. Não é desconto, é tempo seu.
Na dúvida, a hora é sua régua de honestidade. Todo orçamento que passa nela antes de sair para a cliente é orçamento que não esconde prejuízo.
Perguntas frequentes sobre calcular a sua hora na confeitaria

Quanto vale a hora de uma confeiteira? Varia por cidade, experiência e estrutura, e não existe um número universal. O que existe é a sua conta: salário desejado dividido pelas suas horas produtivas de verdade. Usar número emprestado de outra é cobrar no escuro.
Devo colocar horas de venda e atendimento na conta? Não no custo-hora, elas poluem o número e você perde a régua. Separe as horas de produção para multiplicar pela receita, e trate a hora invisível como custo geral ou pró-labore.
E o tempo de forno que fica sozinho? Se a cozinha não pode ser usada para outra coisa enquanto assa, conta. Se você pode montar outro pedido nesse intervalo, aí o bolo não consome essa hora toda. Pense em uso do tempo, não em tempo do relógio.
Posso cobrar menos no começo para conseguir cliente? Pode, mas como promoção com data e não como preço-base. Quem abre o catálogo com a hora barata fixa tem dificuldade enorme de subir depois, e essa é a armadilha do crescimento no prejuízo.
Mão de obra entra antes ou depois da margem? Antes. Soma ingredientes mais mão de obra e embalagem, esse é o custo total, e a margem é aplicada em cima. Se você inverter, seu salário vira sobra.